De bóias-frias e barrageiras à herdeiras da terra: trajetórias e sororidade entre assentadas rurais do interior de São Paulo

Autores

  • Larissa Araujo Coutinho de Paula UNESP/FCT
  • Rosangela Aparecida de Medeiros Hespanhol UNESP/FCT

DOI:

https://doi.org/10.25059/2527-2594/retratosdeassentamentos/2021.v24i1.478

Palavras-chave:

Gênero, Assentadas Rurais, Associações de Agricultoras, Estratégias de Reprodução Socioespaciais

Resumo

Neste artigo contextualizamos a história de dois grupos de assentadas em diferentes regiões do Estado de Paulo, quais sejam: A Organização de Mulheres Unidas (OMUS), localizada no Assentamento Gleba XV de Novembro, em Rosana; e a Associação de Mulheres Assentadas do Assentamento Monte Alegre VI (AMA), inserida no Assentamento Monte Alegre, em Araraquara. A partir de procedimentos metodológicos qualitativos, reconstruímos o processo de luta pela terra e da formação de grupos de trabalho criados pelas mulheres rurais. Constatamos que, apesar de várias adversidades, por meio de estratégias socioespaciais individuais e coletivas, estas mulheres têm demonstrado a relevância de seus trabalhos, contribuindo para a permanência de si e de suas famílias na terra, alcançando melhorias para os assentamentos e tensionando as relações de gênero estabelecidas nos espaços rurais, fragilizando assim, as dicotomias entre: trabalho e ajuda, espaço doméstico e espaço público. Isso nos permite compreender que as relações de gênero, bem como as estratégias de reprodução e a situação geográfica são fluidas, estão em permanente devir, pois acompanham o movimento contínuo de transformação empreendido pelas associadas, que encontram nessas atividades, fissuras capazes de subverter hierarquias e opressões.

Biografia do Autor

Larissa Araujo Coutinho de Paula, UNESP/FCT

Doutora em Geografia (2020) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Presidente Prudente. Integrante do Grupo de Estudos Dinâmica Regional e Agropecuária (GEDRA), da Rede de Estudos de Geografia, Género e Sexualidade Ibero Latino-Americana (REGGSILA) e do Laboratorio de Geografía y Género 'Cuerpos X' (Universidad de Chile).

Rosangela Aparecida de Medeiros Hespanhol, UNESP/FCT

Docente dos Cursos de Graduação e Pós-graduação em Geografia da UNESP de Presidnte Prudente.

 

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Publicado

2021-08-02

Como Citar

Araujo Coutinho de Paula, L., & Aparecida de Medeiros Hespanhol, R. (2021). De bóias-frias e barrageiras à herdeiras da terra: trajetórias e sororidade entre assentadas rurais do interior de São Paulo. Retratos De Assentamentos, 24(1), 158-186. https://doi.org/10.25059/2527-2594/retratosdeassentamentos/2021.v24i1.478

Edição

Seção

Artigo Original - IX Simpósio de Reforma Agrária e Questões Rurais