Lavagem de terras e grilagem institucionalizada
arrecadação sumária, titulação estatal e direitos quilombolas em Itapecuru-Mirim/MA
DOI:
https://doi.org/10.25059/2527-2594/retratosdeassentamentos/2026.v29i1.688Palabras clave:
lavagem de terras, grilagem, territórios quilombolas, regularização fundiáriaResumen
Este artigo analisa se a arrecadação sumária e a posterior titulação de terras públicas pelo Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (ITERMA), no caso da Comunidade Quilombola Cheiroso, em Itapecuru-Mirim/MA, produziram legitimação institucional de uma cadeia dominial previamente marcada por fraude. A pesquisa parte da seguinte questão: em que medida a atuação administrativa do ITERMA foi compatível com o regime jurídico das terras devolutas, com a proteção constitucional dos territórios quilombolas e com os princípios que orientam a destinação de terras públicas? Adota-se abordagem qualitativa, jurídico-crítica e análise documental. Argumenta-se que o caso revela uma modalidade contemporânea de grilagem institucionalizada, aqui denominada “lavagem de terras”: a reinserção de uma posse ou cadeia dominial viciada no sistema jurídico por meio de atos administrativos formalmente válidos. Os resultados indicam inconsistências entre a finalidade pública da arrecadação sumária, a precedência do requerimento quilombola de 2005, o reconhecimento administrativo da fraude dominial em 2018 e a posterior emissão de títulos a terceiros. O artigo contribui para os debates sobre governança fundiária, proteção constitucional de territórios quilombolas e produção estatal de legalidade aparente em contextos de conflito agrário.
Citas
REFERÊNCIAS
AMARAL NETO, Roberval. A luta pela terra no Maranhão contemporâneo: A “Lei Sarney de Terras” e a resistência camponesa. Entropia, Rio de Janeiro. Vol. 5. N°9. Jan/Jun/2021. Pág. 147/164.
ARAS, Vladimir; LUZ, Ilana Martins. Lavagem de dinheiro: comentários à Lei n. 9.613/1998. São Paulo: Almedina Brasil, 2023.
ASSELIN, Victor. Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás. Petrópolis, RJ: Vozes, 1982.
BARBOSA José Alberto Maia. Governança de Terras: Regularização Fundiária Na Amazônia Legal. pp. 78-82. III Seminário Internacional de Governança de Terras e Desenvolvimento Econômico: Regularização Fundiária / Bastiaan Philip Reydon (Coord. Científico). Campinas, SP: Unicamp, 2018
BARBOSA, Caroline Vargas. Direito Agrário: Procedimento Administrativo e Judicial. Registro de Imóveis: Registro do Vigário ou Paroquial. Registro atual de imóveis rurais. Averbações. PUC GOIAS, 2025. Disponível em: https://professor.pucgoias.edu.br/sitedocente/admin/arquivosUpload/18787/material/Direito%20Agr%C3%A1rio%20-%20Aula%209.pdf. Acesso em 10 de abril de 2026.
BENATTI, José Heder. Das Terras Tradicionalmente Ocupadas ao Reconhecimento da Diversidade Social e de Posse das Populações Tradicionais na Amazônia. p. 195-216. Propriedades em Transformação: Abordagens Multidisciplinares sobre a Propriedade no
Brasil - Vol. 1. São Paulo: Blucher, 2018. Disponível em: https://pdf.blucher.com.br/openaccess/9788580393279/10.pdf. Acesso em: 10 de abril de 2026.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 10 março 2026.
BRASIL. Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850. Dispõe sobre as terras devolutas do Império e acerca das que são possuídas por título de sesmaria sem preenchimento das condições legais. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L0601-1850.htm. Acesso em: 10 de março de 2026.
BRASIL. Lei n. 4.504, de 30 de novembro de 1964. Dispõe sobre o Estatuto da Terra, e dá outras providências. Brasília, DF, 30 nov. 1964. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4504.htm. Acesso em: 10 de março de 2026.
BRASIL. Ministério da Política Fundiária e do Desenvolvimento Agrário. O livro branco da grilagem de terras no Brasil. Brasília: INCRA, 199-.
CPISP. Regularização: histórico das regulamentações. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/regularizacao-historico-regulamentacoes/, 2019. Acesso em 02 de maio 2026.
CPT. Conflitos no Campo Brasil 2024. Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno. Goiânia, GO: CPT Nacional, 2025.
CPT. Conflitos no Campo Brasil 2025. Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno. Goiânia, GO: CPT Nacional, 2026.
EVANGELISTA, M., & SAUER, S. (2025). Matopiba – fronteira do desenvolvimento e da contradição: produção e acúmulo de riqueza em um território de desigualdades. Retratos De Assentamentos, 28(2), 219-237. https://doi.org/10.25059/25272594/retratosdeassentamentos/2025.v28i2.640
FARIA, Camila Salles de. Cadeia dominial: uma leitura da grilagem e da constituição da propriedade privada capitalista das terras. A grilagem de terras na formação territorial brasileira, p. 55-82, Projeto editorial: Ariovaldo Umbelino de Oliveira. São Paulo: FFLCH/USP, 2020.
FRIDERICHS, Lidiane Elizabete, Monica Piccolo Almeida, CHAVES. A ditadura civil-militar e seus impactos no campo: a associação entre Estado, empresários e grileiros no processo de expropriação rural no Maranhão. Revista Brasileira de História, v. 45, n. 98, 2025.
HAMDY, Nile William Fernandes. Função social da posse: ruptura ou prolongamento do uso capitalista da terra? Revista ARACÊ, São José dos Pinhais - PR, v.7, n.1, p.1562-1576, 2025
ITERMA. Instrução Normativa nº 001/2017. Disponível em: https://iterma.ma.gov.br/ . Acesso em: 05 de junho de 2025.
ITERMA. Instrução Normativa nº 002/2015. Disponível em: https://iterma.ma.gov.br/ . Acesso em: 05 de junho de 2025.
ITERMA. Instrução Normativa nº 002/2019. Disponível em: https://iterma.ma.gov.br/ . Acesso em: 05 de junho de 2025.
ITERMA. Instrução Normativa nº 002/2023. Disponível em: https://iterma.ma.gov.br/ . Acesso em: 05 de junho de 2025.
ITERMA. Instrução Normativa nº 003/2023. Disponível em: https://iterma.ma.gov.br/ . Acesso em: 05 de junho de 2025.
ITERMA. Regularização Fundiária dos Territórios Quilombolas no Estado do Maranhão: legislação estadual, perguntas e respostas. Caderno ITERMA Quilombolas 1ed. – São Luís, 2021.
MARANHÃO. Lei nº 5.315, de 23 de dezembro de 1991. Dispõe sobre terras de domínio do Estado e dá outras providências. São Luís: Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, 1991.
MARÉS, Carlos Frederico. A função social da terra. 2ed. Curitiba: Arte&Letra, 2021.
MELLO, J. P.; MARTINEZ, D.A.; SANTOS, J.P.; SANTOS, J.V.G.; MELLO, D.S. Fronteiras marginais: a luta das comunidades quilombolas da Amazônia brasileira contra a invisibilidade no debate sobre conservação ambiental. Amazônica Revista de Antropologia, v. 16, n. 2, p. 115-142, dez. 2024. ISSN 2176-0675.
MORAES, V. H. S.; SHIRAISHI NETO, J.; AGOSTINHO, L.L.F.; GOMES, E.M. Consultoria Jurídica para sistematização e a consolidação das salvaguardas socioambientais de REDD+ (TR 80.2022.93265 – IPAM). Produto 02: Relatório de sistematização de conflitos fundiários à luz da política de regularização fundiária do Maranhão no âmbito de salvaguardas socioambientais e garantia de direito à terra. Lira e Lemos Advogados Associados, São Luís, 2023.
NASCIMENTO, João Victor Venâncio Vasconcelos do; MORAIS, Hugo Belarmino de. Lavagem de terras: novidade sociojurídica das estratégias do capital. InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais, Brasília, v. 11, n. 1, p. 313-346, jan./jun. 2025.
OLIVEIRA, Hugo Henrique Carvalho de. O direito de propriedade e o cumprimento da função social da terra no direito agrário. 2024. 40f. Monografia (Graduação em Direito) Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2024.
OLIVEIRA. Ariovaldo Umbelino. A grilagem de terras na formação territorial brasileira [recurso eletrônico] / Projeto editorial: Ariovaldo Umbelino de Oliveira. -- São Paulo: FFLCH/USP, 2020.9.920 Kb; PDF.
OMENA NETO, A. J. de, DANTAS CAMPOI, J. A. G., & RIBEIRO, M. L. (2025). Estado e política fundiária no Brasil: Uma revisão da literatura, a história e suas referências ao mundo rural brasileiro da colonização aos dias atuais. Retratos De Assentamentos, 28(2), 91-122. https://doi.org/10.25059/2527-2594/retratosdeassentamentos/2025.v28i2.630
PAIVA, Bruno Ribeiro de. Leilões judiciais de terras: a nova fraude contra camponeses/as, contra o Estado e contra o meio ambiente. Disponível em: https://cptne2.org.br/noticias/noticias-por-estado/pernambuco/5808-leiloes-judiciais-de-terras-a-nova-fraude-contra-camponeses-as-contra-o-estado-e-contra-o-meio-ambiente. Acesso em: 08 de abril de 2026.
REYDON, B. P.; MOREIRA, G.L.; BUENO, A.P.S.; PASSOS, D. Regularização fundiária p 161-191. FAO/SEAD. Governança de terras: da teoria à realidade brasileira, Brasília: FAO, 2017.
SANTOS, Brena Medeiros Pires. Pequena história territorial do Brasil: sesmarias e terras devolutas, de Ruy Cirne Lima. Revista de Direito Civil Contemporâneo. vol. 46. ano 13. p. 347-360. São Paulo: Ed. RT, jan-mar 2026.
SHIRAISHI NETO, Joaquim. Entraves ao cumprimento do artigo 68 da ADCT pelo ITERMA: cipoal legal, insegurança jurídica e o contexto regional. Revista da Faculdade de Direito da UFG, Goiânia, v. 45, n. 1, 2021.
SILVA, Joelma Albuquerque da. O cultivo da mandioca como estratégia de resistência frente ao conflito agrário na comunidade quilombola Cheiroso, Itapecuru-Mirim/MA: um estudo de caso. 2025. 69f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Agrárias) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – IFMA. Campus São Luís Maracanã, 2026.
SILVA, Wellington Albuquerque da. Regularização fundiária no quilombo cheiroso Itapecuru Mirim-MA: estudo das implicações do avanço da grilagem de terras e a não garantia dos direitos humanos e sociais das comunidades tradicionais. 2025. 80f. Monografia (Graduação Licenciatura em Ciências Agrárias). Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão IFMA/Codó, 2025.
SOARES, M. R.; SILVA, C.T.P.; COSTA, R.L.J.; SÁ, A.S. Luta e territorialidade quilombola e o direito à consulta prévia, livre, esclarecida e de boa-fé em quilombos de Anajatuba/MA. ContraCorrente: Revista do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Manaus – AM. v. 1, n. 23, p. 12-29, 2024.
SOLAZZI, José Luís; WOLKMER Antônio Carlos. Interpretação constitucional, pluralismo jurídico e a questão quilombola: uma abordagem descolonial e intercultural do decreto nº 4.887/2003 e da adi 3239. (p. 31 - 53). Direitos territoriais quilombolas: além do marco territorial/ Coordenadores, Antônio Carlos Wolkmer, Carlos Frederico Marés de Souza Filho, Maria Cristina Vidotte Blanco Tarrega. Goiânia: Ed. da PUC Goiás, 2016.
SPINELLI, Lucas Gebara. No rastro das terras devolutas no litoral sul da Paraíba: um estudo sobre a formação da propriedade privada da terra. 2022, 381f. Tese (Doutorado em Geografia) Universidade Federal da Paraíba/CCEN - João Pessoa, 2022.
TELES JÚNIOR, Adenevaldo; OSCO, Marcelo Fernandez. A Função social da terra: um conceito ainda em disputa no Brasil. Revista de Direito Socioambiental - REDIS, Dossiê “Povos, territórios e direitos: diálogos socioambientais”, Goiás – GO, Brasil, n. 01, 2023, p. I - XVI.
TRECCANI, Girolamo Domenico; MONTEIRO Aianny Naiara Gomes. Regularização Fundiária na Amazônia: notas sobre a Lei nº 13.465/2017. Disponível em: https://governancadeterras.com.br/wp-content/uploads/2018/03/ARTIGO_MONTEIRO_TRECCANI_SGTDE2018FINAL-1.pdf Acesso em: 24 de fevereiro de 2026.
Descargas
Publicado
Cómo citar
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2026 Retratos de Assentamentos

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución 4.0.
O(s) autor(es) autoriza(m) a publicação do artigo na revista;
• O(s) autor(es) garante(m) que a contribuição é original e inédita e que não está em processo de avaliação em outra(s) revista(s);
• A revista não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos, por serem de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es);
• É reservado aos editores o direito de proceder ajustes textuais e de adequação do artigo às normas da publicação.
Autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution, que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre) em http://opcit.eprints.org/oacitation-biblio.html



